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Projeto "Lugares de Charme" promete repaginar Mercado Público de Caicó

NF domingo, 19 de agosto de 2018 | 14:26:00



Por Tádzio França - Criatividade, história e identidade cultural são elementos que ficam bem numa vitrine. Torná-los comercialmente viáveis sem desrespeitar sua essência é um trabalho que exige sensibilidade e visão. O projeto Lugares de Charme, que há três anos atua junto a artesãos populares, agora voltou suas ações ao Mercado Municipal de Caicó, que neste ano completa 100 anos de existência. Numa ação entre artistas locais, o Sebrae-RN e prefeitura da cidade, o projeto está repaginando a casa centenária, ao mesmo tempo em que resgata qualidades e vivências. 


O mercado caicoense, instalado num belo prédio neoclássico de 1918, estava precisando ser revigorado.          O trabalho começou há dois meses e seguirá até o fim do ano, envolvendo uma ação coletiva entre os consultores e os permissionários do mercado. “Ao chegar nas localidades em que faremos as intervenções de repaginação, formamos um grupo de artesãos e artistas ali inseridos para colaborarem nas interferências, afim de que possam divulgar suas obras nas vitrines e cenários formados”, explica Cris Ribeiro, designer, artesã, e idealizadora do projeto Lugares de Charme.

Design resgatado


O projeto trabalha o resgate da cultura e essência local dos artesãos. Segundo a metodologia do Lugares de Charme, a ideia é repaginar através da interferência do design social e afetivo, transformando-os em vitrines de charme para a exposição de artistas que nunca tiveram a oportunidade de vender seus produtos de forma diferenciada e exclusiva. “A partir daí trabalhamos melhorias no produto, interferindo em aspectos estéticos que dialoguem com tendências atuais do design e venham a fortalecê-lo comercialmente”, explica Cris.

O repaginamento acompanha o conceito de design social: interferir sem ferir. O produtor recebe a orientação para tornar seu trabalho mais valorizado no mercado, mas conservando as técnicas que sempre soube fazer. O trabalho é refinado, mas não descaracterizado. “Esse entendimento é fundamental, pois nos preocupamos em buscar melhorias sobre o aspecto da qualidade produtiva”, ressalta a designer. O mercado terá resgatado seu artesanato, culinária e detalhes de sua estética física original.

O trabalho junto ao mercado está em fase de pesquisa iconográfica e etnográfica para colheita das informações. Após a finalização dessa etapa, o grupo fará interferências no espaço ao longo de quatro meses. A ação coletiva reúne 90 permissionários do mercado, 40 artistas plásticos e artesãos de Caicó, atores, poetas, educadores, e até mesmo crianças da Escola Frei Damião, localizada na periferia da cidade. Ao todo, o projeto está envolvendo 200 pessoas em ação.

Matéria afetiva


Cris Ribeiro se diz encantada com a riqueza cultural de Caicó. “É uma imensidão. Estou tendo a oportunidade de conhecer excelentes artistas, poetas, artesãos de alto nível cultural, e tenho me emocionado bastante”, afirma. Entre os personagens que ela encontrou no processo, estão Dona Lídia Brasileira, uma artista plástica e pedagoga de 82 anos, figura folclórica da cidade. Cris e Lídia atuarão junto às 30 crianças que farão intervenções artísticas no prédio do mercado.

Cris Ribeiro coleta histórias em conversas com os mais antigos

Outra figura que está agregando valor afetivo ao espaço é Emanuel Bonequeiro, um jovem artesão, poeta e ator que trabalha nas feiras e na esquina do mercado público, fazendo apresentações com seus bonecos e mamulengos. “Ele diz que a arte é seu amor, e o povo sua plateia e patrão. O dinheiro é consequencia da felicidade”, cita a produtora. Um personagem que também emocionou Cris é Seu Jaime, um artesão de palha que sobrevive de empalhar cestos com técnica ensinada pelo já falecido pai. “Ele deixou a profissão de carteira assinada para ganhar com um trabalho manual que remete à infância, mesmo ganhando menos e sem a estabilidade financeira”, conta.

A repaginação charmosa do mercado inclui a concepção de um museu instalado na fachada interna do prédio. A ideia é promover o resgate da memória afetiva do local, através de um grande cenário que contará a história do mercado, com o objetivo de causar o sentimento de experiência a ser vivida. “Acredito que resignificar a história através de um museu é trazer novas relações com a sociedade. O novo mercado será um lugar de charme, muito mais afetivo, atrativo e próspero”, declara. O trabalho completo está previsto para ser entregue em dezembro.

Santos de casa


Pedro Medeiros, gerente do escritório regional do Sebrae em Caicó, conta que já havia uma demanda dos comerciantes locais para a revitalização do mercado. “O que estamos fazendo aqui não é uma mera restauração. É um resgate de culturas que sempre foram símbolos da cidade, como sua gastronomia, arte e religiosidade. Estamos trazendo de volta coisas que estavam esquecidas”, afirma. A expectativa é que o mercado se torne uma nova referência turística na cidade, conduzido pelas ações da economia criativa.

O resgate de charme inclui identidade cultural, artesanato, gastronomia e até a boemia festiva voltando ao interior do mercado. “Queremos que a repaginada fortaleça o mercado, já que é um ponto estratégico da cidade. E ele será apenas um ponto de partida, já pode oferecer novas perspectivas a nossos comerciantes e empresários. Estamos impulsionando novas ações, que podem ser continuações do que já estamos fazendo no mercado”, explica. O projeto Lugares de Charme obteve o prêmio Brasil Criativo em 2015, pelo Ministério da Cultura (MinC). E daqui a dois anos concorrerá a um prêmio da Unesco.

O projeto em Caicó faz parte de um modelo que pode ser aplicado a cidades de todos os tamanhos. Maíza Pessoa, gerente do núcleo de economia criativa do Sebrae, explica que a iniciativa está inserida dentro do programa Sebrae Tec, que trabalha consultorias junto a micro e pequenas empresas que solicitam esses serviços junto a agências da instituição. “A partir da solicitação a gente envia um consultor credenciado para fazer o diagnóstico do ambiente. O Lugares de Charme tem o diferencial de ser um trabalho coletivo junto a prédio público, mas o nosso princípio de trabalho é o mesmo para todos”, explica.

Cris Dias ressalta que qualquer cidade turística poderá receber a atuação do projeto. “É uma ação de responsabilidade social, e desejamos que toda a cadeia produtiva envolvida possa ganhar”, afirma. A designer conta que a há pouco tempo recebeu o convite da UFPE e departamento de arquitetura para atuar junto a Abrasel-PE junto a uma cidade histórica do estado e a um bairro grande de Recife no primeiro semestre de 2019.






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