terça-feira, 24 de julho de 2018

Caso Marielle: polícia prende um dos suspeitos de estar no carro de assassinos da vereadora



A Delegacia de Homicídios da Capital (DH) prendeu, na manhã desta terça-feira, um ex-PM acusado de ser um dos ocupantes do carro em que estavam os executores da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. A prisão do policial militar reformado Alan de Morais Nogueira, conhecido como Cachorro Louco, aconteceu por causa de um outro caso. Além dele, também foi preso o ex-bombeiro Luis Cláudio Ferreira Barbosa. Os dois são suspeitos de integrar a quadrilha de milicianos chefiada pelo ex-PM Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando da Curicica.

Eles foram presos por serem acusados da autoria dos homicídios de um PM e um ex-PM no sítio de Orlando, em Guapimirim, na Baixada Fluminense, em fevereiro do ano passado, a mando do chefe da quadrilha de milicianos. A informação sobre o envolvimento dos dois partiu do mesmo delator que apontou que o ex-PM Alan Nogueira estava no carro dos executores.

Os alvarás de prisão foram expedidos pela Vara Única de Guapimirim, inclusive o de Orlando _ preso na Penitenciária Federal de Mossoró, no Rio Grande do Norte _ apontado como mandante do crime.

Com essas novas prisões, a estratégia dos investigadores é justamente a de desestruturar o bando de Orlando da Curicica e elucidar o crime contra a parlamentar. Preso, Alan passa a ser uma peça importante nessa quebra-cabeça que virou o caso Marielle. A expectativa da polícia é que, preso e com as informações do delator contra ele, ele ajude a elucidar o que aconteceu na noite do crime.

No depoimento do delator, revelado em maio pelo GLOBO, a testemunha disse ter ouvido uma conversa de Orlando com o vereador Marcello Siciliano (PHS), num restaurante, no Recreio, em junho do ano passado. Na conversa, o vereador teria falado alto: “Tem que ver a situação da Marielle. A mulher está me atrapalhando”. Depois, bateu forte com a mão na mesa e gritou: “Marielle, piranha do Freixo”. Depois, olhando para o ex-PM, disse: “Precisamos resolver isso logo”.

A testemunha-chave, que está sob proteção desde maio, havia revelado que Alan participou da execução de Marielle e Anderson, além da morte de um policial lotado, na época do crime, no 16º BPM (Olaria). Segundo o delator, o ex-PM chegou a trabalhar no quartel da Maré, comunidade onde a vereadora nasceu e manteve suas raízes até a morte. A dupla, segundo a testemunha, estava, com outros dois homens, no Cobalt prata usado na execução.

O delator contou à DH Capital que Orlando descobriu que José Ricardo e Severo pretendiam traí-lo. Os dois foram mortos a tiros. Um dos atiradores chegou a dizer: “Isto é o que acontece com traidor”. Os corpos foram colocados num veículo e trazidos para a capital. Chegando à Rua Jorge Coelho, em Brás de Pina, na Zona Norte, os acusados Alan e Luís Cláudio teriam ateado fogo no carro com as vítimas dentro, a fim de destruir vestígios e dificultar a identificação delas. O crime ocorreu no dia 25 de fevereiro do ano passado.

Severo aparece na lista de policiais militares mortos no ano passado. Até o depoimento do delator de Orlando, a polícia não tinha pistas sobre os homicídios de José Ricardo e Severo. Houve demora até na confirmação das identificações das vítimas, cujos corpos foram carbonizados, após serem mortos a tiros.

Depois que a testemunha passou os detalhes da execução, a DH da Capital conseguiu imagens das câmeras do pedágio da concessionária CRT, que administra a Rio-Teresópolis, que confirmaram a passagem do carro, quando ele saía de Guapimirim para Brás de Pina, no dia do assassinato.

OUTROS CRIMES DE QUE ORLANDO É SUSPEITO

Os outros dois homens que teriam participado do homicídio da parlamentar, de acordo com o delator, já teriam se envolvido, em junho de 2015, em outra execução com características semelhantes à de Marielle, também a mando de Orlando, de acordo com o Ministério Público do Rio. Segundo a denúncia, os dois mataram, com tiros na cabeça, um homem que alugou um terreno na área de influência de Orlando para instalação de um circo, sem autorização prévia do miliciano.

A conclusão do Ministério Público é de que, para estender seus domínios em Curicica, Recreio e algumas áreas das Vargens, na Zona Oeste, Orlando executou outros milicianos que estivessem em seu caminho, porque não aceitavam se subordinar a ele. A polícia agora investiga o rastro de homicídios nas regiões que poderiam ter Orlando como mandante. Para isso, o chefe da milícia costuma usar a mesma equipe para cometer os assassinatos, trocando apenas um ou dois integrantes.

Orlando é suspeito ainda de mandar matar o ex-presidente da escola de samba Parque da Curicica, Wagner Raphael de Souza. Em 7 de junho de 2015, às 19h, segundo um sobrevivente, dois homens do bando de Orlando desceram de um Kia Cerato branco e atacaram o carro em que o dirigente da escola viajava com uma outra pessoa no banco do carona.

Os tiros acertaram Wagner na cabeça, matando-o, e feriram a outra pessoa que estava ao lado dele. Na ação penal, o MP do Rio ressaltou que “o crime foi cometido de forma a impedir a defesa das vítimas, já que os disparos foram efetuados a pouca distância e contra suas cabeças”. O carona, que ficou ferido, afirmou em depoimento à polícia que Wagner “causava problemas” para Orlando, pois “sempre agiu sozinho, apoiando candidatos políticos independentes” e contrariando os interesses da milícia. “Mesmo sem pertencer à milícia, ele não baixava a cabeça para eles. Era uma pessoa muito forte na comunidade, o que o tornou um perigoso rival da facção criminosa”, contou o sobrevivente do ataque. Depois, ela mudou sua versão ao ser interrogada pelo MP, e passou a negar a participação de Orlando na execução.

Há pouco mais de um mês, Orlando foi transferido para a penitenciária federal de Mossoró, no Rio Grande do Norte, onde ficará até pelo menos junho do ano que vem, de acordo com decisão tomada pela Vara de Execuções Penais do Rio de Janeiro. O chefe da milícia de Curicica, Recreio e Vargens responde a cinco processos. Num deles, por posse de arma, quando foi preso em casa, num condomínio de classe média em Vargem Pequena, Orlando foi condenado a quatro anos de prisão.


O Globo



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