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"Fui presa pela banda podre da polícia", diz advogada investigada em Natal

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"Eu fui presa pela banda podre da Polícia Civil do Rio Grande do Norte, pelos inimigos do meu marido. Isso porque eu sei que há corrupção dentro da polícia. Estou presa injustamente por perseguição policial. O objetivo é me humilhar, me calar, mas não vão conseguir". A declaração é da advogada Ana Paula da Silva Nelson, que está presa desde a terça-feira (6), quando foi deflagrada a operação Medellín, do Ministério Público e da Polícia Civil. Ana Paula é viúva do policial civil Iriano Serafim Feitosa, morto a tiros em 3 de fevereiro desde ano em Cidade Satélite, bairro da Zona Sul de Natal.

Ana Paula está presa sozinha em um alojamento pequeno, que tem um banheiro e apenas um beliche como mobília, na Companhia de Polícia Feminina da PM, no bairro de Lagoa Nova. Usando camisa pólo e short jeans, ela conversou com o G1 por pouco mais de 30 minutos no início da tarde desta quinta (8) em um corredor da Companhia. A advogada pediu para não ser fotografada ou filmada.

"Eu sou inocente. Não há nada que possa comprovar que eu me associei a traficantes ou que lavei dinheiro proveniente do tráfico de drogas porque eu nunca fiz isso. Todo o meu dinheiro e meus bens vêm de honorários advocatícios. Além disso, meus pais sempre tiveram boas condições financeiras. Às vezes que precisei, eles me ajudaram", falou a advogada.

Segundo Ministério Público, Ana Paula Nelson atuava com o traficante de drogas Gilson Miranda Silva, que está foragido. De acordo com o MP, a advogada usava de "influência indevida em benefício" do traficante. Uma das acusações é que ela e Iriano alertaram Gilson Silva de que ele seria preso em uma operação policial ano passado. A advogada e o policial souberam dessa investigação após irem ao fórum de Santa Cruz, cidade a cerca de 120 quilômteros de Natal. Ainda segundo o MP, após descobrirem a possibilidade de prisão do traficante, Ana Paula e Iriano, inclusive, o levaram para Recife (PE), onde se hospedaram no mesmo flat.

"Eu realmente fui ao fórum de Santa Cruz, mas usando apenas as minhas prerrogativas de advogada. Solicitei vistas ao processo sim, mas isso me foi negado pelo juiz. Sendo assim, como eu poderia avisar o Gilson, que não é meu cliente há mais de um ano, se nem mesmo pude consultar os autos do processo?", indagou. Sobre a ida ao Recife com Gilson, ela disse não poder comentar por se tratar de assunto profissional.

Os promotores também dizem que o carro pertencente a Iriano Feitosa e que foi alvejado durante o atentado que o vitimou teria sido dado por Gilson Silva ao policial. "Isso é mentira. Eu nem conhecia Iriano quando ele comprou o carro financiado. Até hoje, somente R$ 10 mil desse financiamento foram pagos. Tenho documentos para comprovar essa compra", afirmou.

O MP também aponta Ana Paula e Iriano como interlocutores da "compra" de um inquérito policial a um delegado. Essa negociação teria se dado para evitar a investigação do assassinato de Bruno Rocha de Paiva, que teria sido cometida a mando de Gilson Silva. A advogada também nega essa acusação. "Isso nunca aconteceu, sequer conheço o delegado. O que sei em relação a isso é que outras pessoas tiveram acesso a esse inquérito e que, inclusive, andavam com cópia autenticada dele. As pessoas que estão me investigando sabem disso".

Ana Paula disse ainda ao G1 que a prisão dela é para tentar calá-la. "Eu sei de muita coisa, da corrupção dentro da Polícia Civil. O objetivo dessa prisão é me humilhar, tentar mostrar que são fortes. Se não fosse isso, não tinha porque a polícia apreender até mesmo as alianças de casamento dos meus pais, que são casados há mais de 40 anos, no dia da operação. Não tinha porque apontar uma arma para o meu pai mandando ele dizer onde fica o meu cofre se nem mesmo eu tenho. Mas, na hora certa, toda a verdade será mostrada. E devidamente comprovada", concluiu.

Operação Medellín
O Ministério Público e a Polícia Civil do Rio Grande do Norte deflagraram a operação denominada ‘Medellín’ na última terça-feira (6) com o objetivo de desarticular uma quadrilha de tráfico de drogas, também responsável por crimes de lavagem de dinheiro ou ocultação de bens, direitos e valores.

Foram expedidos 14 mandados de prisão, 12 de condução coercitiva (quando a pessoa é levada a depor e depois é liberada) e 26 de busca e apreensão. Entre os detidos estão dois advogados e três pessoas que já estão presas por outros crimes. A quadrilha é suspeita de ter lavado cerca de R$ 20 milhões com a compra de imóveis e carros de luxo. Participam da operação 21 delegados, 110 agentes e escrivães e mais quatro promotores de Justiça.

OAB pede soltura de advogados
A Ordem dos Advogados do Brasil no Rio Grande do Norte (OAB/RN) entrou com dois pedidos liminares de soltura dos advogados Ana Paula da Silva Nelson e Allan Clayton Pereira de Almeida. De acordo com o presidente da OAB no estado, Paulo Coutinho, a prisão dos advogados não contribui em nada para as investigações.

"Todas as provas já foram produzidas, os advogados já prestaram depoimento, então a prisão dos advogados não é necessária. Os dois tem estabelecimentos comerciais em Natal, endereço certo, atuação profissional a muito tempo na capital. Para a apuração do caso, não nos parece necessário que os advogados estejam presos", explicou Coutinho.

Ainda de acordo com o presidente, o pedido de Habeas Corpus para o advogado Allan Clayton foi distribuído nesta quinta. Enquanto isso, o de Ana Paula deve ser distribuído na sexta-feira (9).


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